Opinião

Crise das tradings de café expõe o risco da Política de Risco

“Não são poucas as histórias de empresas que sobreviveram ou sucumbiram por causa desses contratos de hedge”

Café

“O risco da política de risco”. Escutei essa expressão outro dia de um colega muito respeitado em seu setor, numa conversa sobre a situação triste de algumas empresas de café, passando por muito aperto ou mesmo não resistindo à condição de mercado atual.

A crise de algumas tradings poderia parecer um contrassenso para muitos, já que os altos preços do café deveriam ser uma boa notícia para o setor. Essa situação foi muito bem explicada por Luiz Henrique Mendes e Tatiana Freitas aqui no The AgriBiz.

No nosso país, os cafeicultores foram pioneiros na utilização de contratos financeiros para a gestão de riscos. A primeira bolsa de nosso país foi justamente a Bolsa de Café no porto de Santos, criada em 1914 e cujo belo prédio hoje abriga o Museu do Café, que vale ser visitado.

Geralmente, os players do mercado de café têm Políticas de Risco bem desenhadas e muito testadas ao longo dos anos. Mas commodities são commodities, e a volatilidade e os movimentos surpreendentes sempre vão ocorrer. Resta saber se as políticas e os instrumentos usados pelas companhias estão bem alinhados em tempos de stress nos descasamentos de fluxo de caixa.

Mesmo estando previsto na Política, o uso de instrumentos não lineares deve sempre ser cauteloso e feito por profissionais preparados. E a escolha sobre a utilização de contratos listados ou de balcão também deve ser sempre muito consciente e ponderada pelos possíveis choques no caixa.

Nos contratos listados, as chamadas (ou recebimentos) de margem ocorrem diariamente e isso deve ser incorporado na política de gestão financeira, mesmo se a corretora fornecer uma linha de crédito. Já os contratos de balcão são regidos no Brasil pelos CGDs (Contratos Gerais de Derivativos) ou semelhantes utilizados pelos bancos, cujos famosos Apêndices devem ser cuidadosamente estudados.

Contratos de balcão bem estruturados e CGDs bem negociados podem fazer a diferença na sobrevivência de uma empresa. Não são poucas as histórias de empresas que sobreviveram ou sucumbiram por causa desses contratos, principalmente entre as que correm risco de commodities.  

Muitas vezes, os bancos oferecem o relacionamento de derivativos em paralelo a algum produto de crédito, para eventualmente ser acionado no futuro. Isso pode levar a uma análise não muito profunda do CGD por parte dos clientes, já que a negociação do crédito tem a prioridade.

Vale a pena tomar um tempo para revisitar esses contratos, e renegociar com os bancos buscando uma uniformidade de termos. Assim, quando forem usados, as diferenças de precificação dos derivativos refletem apenas o apetite dos bancos e não alguma cláusula obscura de algum apêndice.

A governança de riscos é, sem dúvida, positiva para o crédito de uma empresa e sua capacidade de navegar pela volatilidade dos mercados. No entanto, é importante lembrar que nem todos os riscos estão à vista e que ignorar os riscos ocultos pode levar a consequências graves.

Contratos bem estruturados, políticas revisadas com frequência e uma postura vigilante são essenciais para construir resiliência e assegurar a sustentabilidade de qualquer negócio em um setor tão dinâmico quanto o agronegócio.

Direto da mesa de riscos

Os mercados encantam e assustam, com manchetes que amplificam volatilidade e parecem inéditas, mas frequentemente seguem padrões já conhecidos. Nas últimas semanas, o foco tem sido a política de Trump e o clima na Argentina.

Trump busca manter o crescimento econômico dos EUA e equilibrar os fluxos comerciais, mas as incertezas sobre tarifas e subsídios permanecem, pressionando commodities agrícolas. Já na Argentina, o clima quente e seco impactou a safra de soja, mas o peso da América do Sul se mantém, com o Brasil liderando uma safra recorde de 170 milhões de toneladas.

Relatórios do USDA indicaram estoques menores nos EUA, levando à recomposição de posições e fortalecendo o complexo soja. No entanto, a trajetória de baixa deve se consolidar no médio prazo, a menos que surjam novos problemas climáticos. O milho segue sustentado por estoques apertados e demanda forte, especialmente no Brasil.

Olhando à frente, vale atenção aos preços de biocombustíveis, como o óleo de soja, devido à pressão americana por combustíveis baratos.

Para produtores e investidores, revisar estratégias de hedge e monitorar tendências globais é essencial para navegar em um setor tão dinâmico quanto o agronegócio. Os mercados repetem padrões e exigem preparo contínuo frente aos desafios.

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Rafael Harada, colunista de The AgriBiz, é CEO e cofundador da Virtus Advisors, possui mais de 20 anos na gestão de riscos de commodities e câmbio na JBS, onde foi diretor global de gestão de riscos. É engenheiro com ampla experiencia em mercados de commodities agrícolas e finanças corporativas.