Meteorologia

O calor vai arrefecer, mas a safrinha de milho continua em risco

Chuva retorna, mas quantidade não compensará estiagem de mais de 30 dias no Brasil

A história do atual período úmido do Brasil, que vai de outubro a março, pode ser dividida em duas partes. Entre outubro e janeiro, chuva frequente e temperaturas não tão elevadas garantiram uma boa safra de soja — com as exceções do Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul.

Desde a segunda semana de fevereiro, entretanto, a situação mudou: a chuva enfraqueceu em boa parte do país e a temperatura disparou. Houve uma mudança da posição de sistemas meteorológicos capazes de trazer chuva ao Brasil, como a Alta da Bolívia.

Esta grande circulação de ventos no sentido anti-horário na alta troposfera deslocou-se mais para oeste, afastando-se de áreas produtoras do Sudeste e do Nordeste, além do leste de Goiás. Ainda há especulação em torno do que poderia ter trazido este novo padrão.

Uma das hipóteses gira em torno da temperatura das águas do oceano Pacífico em sua parte equatorial. O fenômeno La Niña, resfriamento do Pacífico, se mostra diferente do normal, parecendo uma ilha de água fria em torno de áreas de água quente e recebendo o nome de La Niña Modoki.

Este padrão diferenciado pode ter modificado o cenário de circulação dos ventos. Como a influência do Pacífico é maior que outras ondas ou fatores intrassazonais, o tempo mais seco e o calor estão predominando por um período prolongado.

O resultado é que a umidade do solo está despencando em Minas Gerais, leste de Goiás e oeste da Bahia, colocando em risco áreas de milho recém-instaladas e eventuais áreas de soja que foram plantadas de forma mais tardia.

Como a chuva retornará somente em meados de março, até lá, mais áreas agrícolas sentirão a diminuição da umidade do solo e manutenção do calor. Além de tudo, será importante o monitoramento da segunda safra de milho no outono no Brasil.

A precipitação que acontecerá daqui uns dez, quinze dias não conseguirá repor toda a umidade do solo. E depois disso, com a chegada da nova estação, a expectativa é de precipitações cada vez mais fracas em todo o país, aumentando a chance de perdas.

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Celso Oliveira, colunista de The AgriBiz, é especialista em clima e tempo da Safira Energia. Atua há mais de 20 anos em previsões climáticas para a agricultura.