
O Cadastro Ambiental Rural (CAR), uma das bases da legislação ambiental brasileira desde 2012, transcendeu a mera exigência legal e tornou-se um dos eixos do debate sobre sustentabilidade e competitividade no agronegócio. Sua importância, contudo, não se traduz em simplicidade, e a complexidade de sua implementação exige um olhar crítico e propositivo.
A relevância do CAR no cenário atual é inquestionável. Ele não apenas impulsiona a conformidade ambiental, mas também se firma como pré-requisito para acesso a crédito, seguros rurais e investimentos em práticas e tecnologias sustentáveis. Em um cenário global cada vez mais exigente, a regularização ambiental se torna um diferencial competitivo, e o CAR, uma das ferramentas para alcançá-la.
Além disso, a consolidação do CAR resultou na maior base de dados georreferenciados de propriedades rurais do planeta. Essa conquista coloca o Brasil na vanguarda do monitoramento ambiental, abrindo portas para a gestão inteligente do território e o combate ao desmatamento ilegal.
No entanto, a jornada do CAR é marcada por obstáculos significativos. A natureza autodeclaratória do cadastro, embora essencial para a adesão em massa, abre espaço para inconsistências e sobreposições. A ausência de uma validação rigorosa e padronizada compromete a confiabilidade dos dados e gera insegurança jurídica para investidores e produtores.
A persistente confusão entre CAR e registro de terras no INCRA, somada à burocracia excessiva, dificulta a regularização e desestimula a adesão. A complexidade do sistema e a falta de clareza nas normas contribuem para a lentidão na análise dos cadastros.
O alarmante percentual de CARs regularizados, estimado em apenas 2%, expõe a urgência de medidas eficazes. A falta de regularização não apenas impede o acesso a benefícios financeiros e programas de incentivo, mas também prejudica a reputação do agronegócio brasileiro no exterior.
Diante desse cenário desafiador, a inovação tecnológica surge como aliada indispensável. A validação automatizada de grupos de CARs, impulsionada por inteligência artificial e análise de imagens de satélite, pode agilizar a análise e reduzir as inconsistências. A utilização de dados pré-processados e sugestões de ajustes personalizados simplifica o processo de regularização para os produtores, incentivando a adesão.
A criação de um ecossistema de informações e tecnologias, com a colaboração de entidades como Febraban, CNSEG, CNA e Andav é fundamental para o sucesso do CAR. A integração de dados de diferentes fontes, a padronização de normas e a oferta de ferramentas de apoio aos produtores podem impulsionar a regularização e fortalecer a segurança jurídica.
A Serasa Experian, com sua expertise em análise de dados e soluções tecnológicas, desempenha um papel fundamental nesse processo. Nossas ferramentas podem apoiar a validação de CARs, identificando sobreposições e apoiando a regularização, contribuindo para a construção de um ambiente de negócios mais seguro e transparente.
O CAR, em sua essência, é a bússola que orienta o agronegócio brasileiro rumo à sustentabilidade. No entanto, para que essa bússola funcione com precisão, é preciso aprimorar o sistema, investir em tecnologia e fortalecer a colaboração entre os diversos atores do setor.
A superação dos desafios do CAR não é apenas uma questão de conformidade legal, mas sim um passo fundamental para a construção de um futuro mais próspero e sustentável para o agronegócio brasileiro.
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Marcelo Pimenta é head de agronegócios da Serasa Experian