ENTREVISTA

No Itaú BBA, otimismo com o agro cresce após colheita farta

Pedro Fernandes, diretor de agronegócios do Itaú BBA, diz que recebimentos da safra de verão devem ser bons

O Itaú BBA está entrando no segundo trimestre mais otimista com o agronegócio do que iniciou o ano. Com os produtores colhendo mais soja do que o esperado em boa parte do Brasil, o clima no banco é de otimismo para os recebimentos das dívidas dos produtores de soja, geralmente concentrados nos meses de abril e maio. Até para investir o clima já começa a melhorar, na avaliação de Pedro Fernandes, diretor de agronegócios do banco.

“Iniciamos o ano conservadoramente otimistas. Achávamos que seria um ano de uma leve recuperação de margens e de melhora no recebimento da safra de verão. Hoje podemos falar que achamos que vai ser um ano bom para o setor”, disse Fernandes em entrevista ao The AgriBiz. “O recebimento vai ser bom”, reforçou.

Com a colheita de soja praticamente finalizada, o diagnóstico da saúde financeira do produtor ficou mais claro. Com algumas exceções, como os estados do Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, a produtividade ficou acima das expectativas, elevando a receita por hectare apesar de os preços da oleaginosa não terem reagido.

“Essa safra cheia nos dá um grau de confiança maior na nossa decisão de ampliar as operações nesta safra e na próxima”, disse Fernandes. Um dos maiores financiadores do agronegócio, o Itaú BBA espera elevar a sua carteira para R$ 135 bilhões em 2025, resultando em um aumento de participação de mercado. No início do ano, a carteira de crédito da instituição no setor estava em R$ 115 bilhões.

A previsão de crescimento reflete uma expectativa de retomada dos investimentos no campo. Depois de dois anos sem renovar o parque de máquinas, os produtores começam a demonstrar intenção de ir às compras. “Já vemos uma performance melhor nas feiras, um ritmo de negócios mais aquecido. As perspectivas são mais animadoras.”

Financiamento em dólar

Para driblar a alta dos juros, o banco aposta em alternativas de financiamento que reduzam a exposição dos tomadores de crédito à taxa Selic, como as CPRs feitas em dólar. Produtores de commodities, que podem vincular a sua receita às flutuações do câmbio, muitas vezes preferem se financiar em dólar para ficar menos suscetíveis às taxas de juros em reais, que têm inibido os investimentos, segundo Fernandes.

“Esse alongamento dos fluxos de caixa tem sido importante para ter uma taxa de juros que a operação comporta e um casamento entre a geração de caixa e a dívida”, disse o executivo. “A nossa principal preocupação de crédito no agro são os setores que dependem de um financiamento em reais, porque aí, efetivamente, o custo financeiro pode drenar toda a geração de caixa”.

O otimismo chega até ao setor de distribuição de insumos, que deve começar a ver uma reação nas margens. Sem o efeito punitivo do ajuste de estoques dos anos anteriores, as vendas para a safra 2025/26 estão “saudáveis”, tanto para a indústria como para as revendas. “Vemos uma recuperação das margens para níveis mais saudáveis”, disse.

Ainda pode haver, no entanto, algum rescaldo da crise dos últimos dois anos, tanto no caso das revendas como de produtores rurais. “Devem surgir menos problemas novos do que apareceram em 2024. Mas há histórias que simplesmente empurraram um problema para este ano”, ponderou.

As RJs

Grande preocupação dos bancos no ano passado, a escalada dos pedidos de recuperação judicial foi interrompida, um ponto positivo destacado por Fernandes.

“Vemos uma intensidade menor no número de RJs, e as RJs que temos visto são realmente de grupos muito fragilizados. É diferente do cenário do ano passado e que nos preocupava muito. Eram grupos saudáveis ou com problemas que poderiam ser resolvidos de outra forma, mas partiram para uma RJ em busca de termos excessivamente favoráveis para o devedor”, afirma.

Para ele, o agronegócio pode estar passando por um processo semelhante ao que aconteceu com médias empresas há dez anos. “Vimos muitas empresas que entraram em RJ e não conseguiram se reerguer. Acho que também estamos tendo esse aprendizado.

Muita gente entrou em RJ sem bem entender o porquê e viu que não é fácil como parece”, comentou o executivo, mencionando efeitos colaterais do processo de recuperação judicial, como a escassez de crédito e a desconfiança gerado mercado — sem falar na discussão da execução de garantias que têm levado à perda de patrimônio.

O mercado de capitais também deve continuar o seu processo de amadurecimento, o que pode, inclusive, mudar o apetite dos financiadores pelo agronegócio. “Vai ser o ano da confirmação da vocação dos financiadores. No longo prazo, quem vai financiar o agro é quem entende do setor e é capaz de fazer uma correta seleção e avaliação de risco.”

Mais suscetíveis ao escrutínio por serem listados em Bolsa, os Fiagros terão bastante trabalho pela frente para recuperar a credibilidade com os investidores para, efetivamente, voltarem a ser capazes de levantar recursos, avalia.

Essa dinâmica pode resultar em uma maior participação dos bancos privados no financiamento do setor este ano.

“Com o PIB agrícola crescendo e o volume de negócios no agro crescendo, a massa para financiar essa operação vai aumentar. Se ela não vem dos Fiagros e se o mercado de CRAs continuar concentrado em grandes emissores, os bancos vão ficar responsáveis por carregar as agroindústrias e os produtores rurais no financiamento este ano.”