
Um papo de corredor, aparentemente despretensioso, promete transformar a dinâmica do crédito rural no País — a começar pelo Paraná.
A história do primeiro Fiagro estatal surgiu assim, em 30 segundos de conversa. Naquele evento da Apex Partners, o governador Ratinho Jr. captou a provocação de Tiago Reis, fundador da Suno, e Octaciano Neto, sócio da Avra.
Quase um ano e meio depois, a ideia virou realidade — com direito a tocar o emblemático sino da B3. Ao lançar o Fiagro do Paraná, Ratinho Jr. criou uma fonte de financiamento perene, sem a necessidade de consumir recursos do Tesouro anualmente — como ocorre com o Plano Safra.
A engenharia financeira envolve uma espécie de 7 a 1 às avessas, descreveu Vitor Duarte, o chefe de investimentos da Suno Asset. Com apenas R$ 350 milhões, o governo do Paraná criou um instrumento capaz de alavancar R$ 2 bilhões em crédito, atendendo uma demanda reprimida de investimentos em aviários, irrigação e máquinas agrícolas.
Multiplicar o capital só é possível porque o Paraná conseguiu desenhar uma tese capaz de atrair e remunerar os investidores tarimbados da Faria Lima. Não à toa, Alexandre Marco, head de crédito agro da Kinea, marcou presença na cerimônia realizada nesta manhã. A gestora vai investir no fundo paranaense, apurou The AgriBiz.
Para a operação sair do papel, o governo paranaense e a Suno — a gestora responsável pelo fundo — desenharam uma estrutura que funciona como um “blended finance”, misturando recursos estatais a juros subsidiados, de grandes investidores a juros de mercado e de cooperativas e agroindústrias sedentas por investir.
A estrutura começa pela Invest Paraná, a agência de fomento estadual. É por meio dela que o governo estadual vai aportar os R$ 350 milhões — na primeira fase, serão R$ 150 milhões. Esses recursos serão aplicados a 4% ao ano em diferentes FIDCs, customizados para as cooperativas e agroindústrias.
O primeiro fundo
O primeiro dessa leva, um veículo da ordem de R$ 400 milhões, vai atender a demanda dos avicultores da C.Vale, uma cooperativa de Palotina, no oeste do Paraná.
Nesse desenho, o governo entrará com cerca de R$ 80 milhões na cota sênior, a menos arriscada. A C.Vale, por sua vez, ficará com cota subordinada — assumindo os maiores riscos, injetando R$ 160 milhões. O restante será alocado pela Kinea, que entrará na cota mezanino e será remunerada a uma taxa de CDI + 3% ao ano, condizente com o retorno-alvo dos Fiagros da casa.
Com esses recursos, os cooperados da C.Vale terão acesso a um financiamento de investimentos com custos baixos, em torno de 9% ao ano. O dinheiro será aplicado na construção de aviários, o que vai permitir a expansão da produção de carne de frango no Paraná.
A linha de crédito terá vencimento em até dez anos, com prazo de carência, viabilizando o crescimento em uma estrutura que cabe no bolso do granjeiro. Todo o processo de formalização e originação do crédito será tocado pela Agroforte, uma fintech especializada em financiar avicultores e produtores de leite.
O fundo feito para financiar os cooperados da C.Vale ainda está em fase final de formatação, mas os envolvidos acreditam que os financiamentos devem começar a ser liberados em maio.
A amarração com o governo do Paraná contou com um incentivo adicional para a C.Vale estrear a tese. Em contrapartida aos recursos alocados, a cooperativa vai conseguir destravar créditos de ICMS acumulados no Estado, um processo famoso pela demora em todo o País.
O exemplo da C.Vale pode se espalhar para outros grandes exportadores, que também acumulam créditos de ICMS. Gigantes como BRF e Seara, grandes produtoras de carne de frango no Paraná, poderiam usar uma estrutura semelhante para financiar investimentos de seus integrados.
Os próximos na fila
Outras cooperativas estão interessadas no modelo. Na sexta-feira, a Ocepar (Organização das Cooperativas do Estado do Paraná) vai se reunir com os diretores financeiros das cooperativas do Estado para apresentar os detalhes desse modelo de financiamento.
“Temos quase dez segmentos do agro que querem levantar seu próprio fundo. Acredito que, nos próximos seis meses, devemos ter mais quatro Fiagros sendo lançados”, disse o governador Ratinho Jr, em uma entrevista coletiva pela manhã.
Um dos próximos deve ser viabilizado pela CNH. Dona das marcas Case e New Holland, a fabricante de máquinas agrícolas está engajada em conversas com o governo do Paraná para lançar um FIDC exclusivo para financiar a aquisição de máquinas.
Com isso, a CNH criaria uma oferta de crédito adicional ao Moderfrota no Paraná, um Estado que movimenta cerca de R$ 4 bilhões em máquinas agrícolas por ano.
Prestigiando a cerimônia na bolsa, Jocivaldo Feitosa, diretor de produtos financeiros do Banco CNH, disse que a ambição do grupo é levantar um fundo de R$ 750 milhões — eventualmente, em tranches —, mesclando recursos de mercado, do banco e do governo paranaense.
As conversas entre CNH e Paraná ainda estão em andamento, mas seguem a mesma lógica da estrutura desenhada com a C.Vale: os recursos estatais ficam na cota sênior, representando até 20% do tamanho total do fundo. Neste caso, a taxa de juros deve ficar mais próxima a 11% ao ano, em linha com o custo do Moderfrota.
De qualquer forma, a existência de diversas negociações — com cooperativas, agroindústrias e fabricantes de máquinas agrícolas — para criar novos fundos é uma validação, mostrando que o novo modelo de financiamento faz sentido.
Em alguns anos, o Paraná poderia colocar R$ 2 bilhões em recursos do Estado na iniciativa, tornando o financiamento ainda mais poderoso, segundo o governador. “Como para cada real você alavanca de cinco a sete reais, estamos falando entre R$ 10 bilhões a R$ 14 bilhões de investimentos para o setor”.
Demanda não vai faltar. Só as cooperativas paranaenses possuem projetos de R$ 9 bilhões. No futuro, não será surpresa que outros Estados repliquem o exemplo do Paraná, nacionalizando o modelo.