
A vantagem de rentabilidade que a BRF ostentava sobre a Seara não existe mais. Pelo contrário. A subsidiária da JBS virou o jogo ainda no terceiro trimestre, mas a distância aumentou consideravelmente no quarto trimestre, abrindo mais de três pontos percentuais de superioridade em margem Ebitda.
No balanço do quarto trimestre, divulgado ontem à noite pela JBS, a Seara apresentou uma margem Ebitda de 19,8%. A dona da Sadia entregou uma margem de 16,6% no mesmo período.
Com essa desvantagem, a BRF deixou de fazer mais de R$ 530 milhões em Ebitda — um número que seria alcançado se a dona da Sadia entregasse uma rentabilidade semelhante à concorrente.
A diferença trimestral chamou ainda mais atenção também pelo momento em que ocorreu. Historicamente, o quarto trimestre é um momento mais favorável para a BRF, líder disparada do mercado brasileiro com produtos natalinos — o peru da Sadia e o Chester, da Perdigão, são ícones.
Além disso, a virada evidencia uma transformação que parecia improvável um ano antes, quando a dona da Sadia tinha uma vantagem de 6,6 pontos percentuais de margem sobre a Seara.
Naquele momento, a BRF já colhia os frutos de uma reestruturação operacional que capturou mais de R$ 4 bilhões para o Ebitda, enquanto a subsidiária da JBS reconhecia que vinha deixando a desejar — a admissão dos problemas, aliás, levou a Gilberto Tomazoni a ficar mais perto da gestão da Seara.
A proximidade do CEO global, um exímio conhecedor dos negócios de aves e suínos, foi também uma demonstração da importância que a JBS dava à recuperação da Seara, além do incômodo de ver a concorrente na dianteira.
Desde a aquisição da Seara, em 2013, a JBS estava acostumada a ter um concorrente combalido, sofrendo com trocas constantes de executivos e problemas operacionais de toda ordem.
A situação mudou rapidamente a partir de 2022, depois que Marcos Molina assumiu o controle e nomeou Miguel Gularte como CEO. À frente da BRF, o executivo gaúcho liderou uma transformação brutal das operações na dona da Sadia, trazendo mais eficiência.
De quebra, contou com o ciclo excepcional da carne de frango, alçando a dona da Sadia ao melhor resultado da história em 2024 — com mais de R$ 6,5 bilhões em geração de caixa. A Seara, é claro, também se beneficiou desse ciclo, mas parece ter se saído melhor.
Diferenças na estratégia, como a intenção da BRF de ganhar market share, podem até ajudar a explicar parte da diferença, assim como um possível aperto nas margens do negócio de margarina — o óleo de soja ficou mais caro.
Conhecendo a dona da Sadia, é improvável que a dianteira da Seara não gere reações. Do outro lado, é também difícil acreditar que a subsidiária da JBS se sente em cima dessa vantagem.
Em teleconferência nesta quarta-feira, aliás, Tomazoni disse que há mais pontos de eficiência para ganhar na Seara. “Não colhemos todo o resultado do que foi feito”, afirmou.
Lideradas por executivos obcecados por andar na frente — Gularte já admitiu ser um “comparador contumaz”, o que não é diferente do apego aos detalhes de Tomazoni —, BRF e Seara disputam não só a preferência do consumidor (neste particular, a Sadia está na frente), mas também a hegemonia em eficiência.
A briga é boa.