
Que a BRF bateria todos os recordes, ninguém mais duvidava. Aproveitando o excepcional o ciclo do frango, o resultado estelar divulgado ontem à noite confirmou as expectativas, coroando um programa de eficiência operacional que já capturou R$ 4 bilhões adicionais para o Ebitda recorrente. Agora, a dúvida é saber o que fazer com tanta geração de caixa.
Em 2024, o melhor ano da história para a dona da Sadia, a BRF registrou um fluxo de caixa livre de R$ 6,5 bilhões, derrubando os indicadores de endividamento para um patamar baixíssimo, sem paralelo entre os pares. Em dezembro, a relação entre dívida líquida e Ebitda estava em 0,79 vez. Um ano antes, o indicador marcava 2 vezes.
A alavancagem permaneceu acanhada mesmo depois do pagamento de dividendos. No fim do ano passado, a BRF distribuiu R$ 1,1 bilhão aos acionistas sob a forma de JCP (Juros sobre Capital Próprio). O pagamento foi um marco da reestruturação da companhia. Depois de oito anos, os sócios da dona da Sadia voltaram a ser remunerados.
Tecnicamente, a BRF poderia distribuir ainda mais dividendos com os resultados registrados no ano passado. No balanço, a companhia ainda possui R$ 2 bilhões em reservas de lucro.
Pelas regras contábeis, no entanto, a dona da Sadia pode manter esses recursos em caixa. Considerando o lucro de R$ 3,7 bilhões em 2024, a BRF já distribuiu o equivalente a 30,1% em proventos aos acionistas — acima do mínimo de 25% exigido pela lei das S.A.
Os projetos de expansão
Uma alternativa para o caixa acumulado é a expansão de fábricas no Brasil e no exterior, uma decisão que está efetivamente em avaliação. Em novembro, o vice-presidente de finanças e relações e investidores da BRF, Fábio Mariano, já havia indicado que a companhia possui cerca de R$ 1 bilhão em projetos de expansão na mesa.
Ontem à noite, em entrevista a jornalistas, o executivo reafirmou os planos. “De fato, temos um pipeline grande de projetos. Não quer dizer que tudo vai ser aprovado, mas temos a convicção de que a demanda seguirá firme e sólida para os próximos anos”, argumentou Mariano.
A BRF quer estar preparada para atender a essa demanda crescente. “A população vai crescer desproporcionalmente em regiões que temos presença relevante, e precisamos estar preparados para esse abastecimento”, disse ele, em alusão aos mercados da Ásia e Oriente Médio.
Por enquanto, a dona da Sadia ainda não abriu detalhes sobre os projetos em avaliação, mas eles incluem a expansão das linhas de alimentos processados no Brasil e até mesmo a expansão da produção de carne de frango — neste caso, em um horizonte de médio e longo prazo.
“Com muito critério, vamos estudar. Se os projetos cumprirem a viabilidade, vamos aprovar. Temos uma posição de liquidez muito confortável e vamos destinar recursos para os projetos vencedores”, acrescentou.
Os investimentos se justificam porque, com a melhoria da eficiência operacional dos últimos dois anos, a BRF aumentou a “ocupação dos ativos industriais de forma acelerada”.
Isso ajudou, inclusive, a companhia a ganhar market share no mercado brasileiro. No ano passado, a dona de Sadia, Perdigão e Qualy ganhou um ponto percentual em processados, atingindo uma participação de 40,8%, de acordo com dados da Nielsen citados por Mariano.
Nesse ritmo, a BRF precisará de mais capacidade para continuar crescendo — o esgotamento de capacidade industrial pode demorar mais ou menos tempo, mas a direção parece dada.
Com essas oportunidades em vista, a dona da Sadia pode segurar mais dinheiro em caixa, evitando uma distribuição de dividendos mais significativa. Uma decisão nesse sentido, no entanto, ainda não parece ter sido tomada.
Os efeitos na Marfrig
Entre analistas, há curiosidade sobre os efeitos da alocação do caixa da BRF, especialmente pelo impactos que eles podem ter na Marfrig, controladora da companhia. Na prática, a distribuição de dividendos da BRF teria um efeito negativo sobre o índice de alavancagem da companhia de Marcos Molina no curto prazo.
Como a Marfrig possui 50,5% das ações da dona da Sadia, receberia apenas a parte que lhe cabe nos proventos. Se não pagar mais dividendos, os recursos permanecem no caixa da dona da Sadia, contabilizando integralmente para o resultado consolidado da controladora.
Em dezembro, o indicador de alavancagem da Marfrig estava em níveis saudáveis — 2,8 vezes. Neste momento, o maior risco parece estar nos EUA. Como a National Beef ainda vai levar tempo para recuperar as margens por causa do ciclo da pecuária adverso nos Estados Unidos.
Em entrevista nesta quarta-feira, o CEO da National Beef, Tim Klein, indicou que a recomposição do rebanho ainda vai levar tempo. “Ainda não vimos uma retenção de novilhas nas fazendas. Esperamos que isso aconteça em 2025, mas por enquanto não vimos nenhum sinal claro disso”, resumiu.
Enquanto a oferta de gado nos Estados Unidos não melhora, a companhia de Marcos Molina fica mais dependente dos resultados da BRF. No ano passado, a dona da Sadia foi responsável por 76% do Ebtida da Marfrig, assumindo um papel que por muito tempo foi ocupado pela National Beef.