Mudanças climáticas

Os novos caminhos da Folio — agora, fora da Raiar

Iniciativa criada pela produtora de ovos orgânicos cresce e vira instituto; objetivo é atrair mais agentes (e recursos) para fomentar a agricultura regenerativa

Coleta para análise de campo na UFSCar em projeto da Folio | Crédito: Divulgação
Coleta para análise de solo em projeto da Folio em parceria com a UFSCar; iniciativa visa transição para agricultura regenerativa | Divulgação

Quatro anos depois de ser criada pela Raiar, a Folio ganhou um CNPJ próprio. Nascida como um projeto de fomento à produção de milho orgânico para a produtora de ovos, a iniciativa cresceu e acaba de se tornar um instituto propriamente dito, sem fins lucrativos, dedicado a fomentar a agricultura regenerativa e orgânica.

O movimento é uma resposta ao aquecimento das discussões sobre o tema nos últimos dois anos, criando demanda para a Folio. Até aqui, o trabalho do instituto — ainda como uma iniciativa, ou uma rede — foi iniciar um diagnóstico do ecossistema de produção de grãos, com foco em traçar soluções práticas para toda a cadeia produtiva. 

Agora, a ambição é desenvolver esse ambiente “para-competitivo”, como define Luís Barbieri, co-fundador da Raiar e diretor executivo da Folio, com quem tiver vontade de fazer parte dessa transformação — sem perder de vista a origem nos grãos. 

“Hoje, os grãos são 60% da área produtiva do País. Não dá para pensar em transição da agricultura brasileira que não parta dos grãos. O destino pode ser o que a gente imaginar”, diz Barbieri.

Na nova fase, a Folio ganha uma estrutura mais robusta, com conselho consultivo, científico e fiscal. Além disso, chega para compor a diretoria executiva Anita Martins (ex-LDC, AmBev e Raízen). Como diretora de operações, ela terá o papel de organizar o trabalho feito pelo instituto e com um foco em gestão de pessoas.

Na prática

O trabalho do instituto terá como foco três pilares essenciais: construção de tecnologia para a transição rumo à agricultura orgânica e regenerativa, gestão de dados e troca de conhecimento. Em outras palavras, fomentar tecnologia, em escala e com inclusão. 

Entre os três, a prioridade em curto prazo continua sendo o desenvolvimento de tecnologias para o campo.

“O debate está até um pouco torto. Falamos de carbono, de serviços ambientais, mas o produtor está fazendo a transição por uma necessidade agronômica. A gente precisa ajudá-lo nessa direção. Se isso ainda trouxer um pagamento por crédito de carbono, ótimo. Mas se a tecnologia não for boa, isso não vai mudar”, explica Barbieri.

Um problema central a ser resolvido é o desenvolvimento de substitutos aos herbicidas, hoje responsáveis por mais da metade das vendas de defensivos agrícolas no País. No caminho para equacionar esse problema, está o uso de plantas de cobertura e de maquinário (este último, já alvo de um projeto ainda bastante embrionário da Folio).

“No fim do dia, queremos construir mais uma agricultura de processos e menos uma agricultura de produtos”, resume o co-fundador da Raiar.

O trabalho até aqui

Ao encabeçar a missão de desenvolver uma agricultura sustentável, a Folio (antes mesmo da criação formal do instituto) já conseguiu estruturar uma série de projetos de olho no desenvolvimento de uma cadeia produtiva mais orgânica. 

O mais emblemático é um projeto desenvolvido com a UFSCar, focado em construir um plano de transição tropical nos próximos cinco anos, a partir da experiência em uma fazenda produtiva de 600 hectares.

A iniciativa tem o maior patrocínio financeiro entre todas as que a Folio toca: a Fundação Itaúsa entrou com R$ 3 milhões e o Instituto Ibirapitanga, ligado à família Moreira Salles, forneceu mais R$ 1 milhão. 

Existe também um projeto com o Instituto Federal de Avaré — focado em fornecer conhecimento sobre bioinsumos on-farm para produtores — bem como a criação de uma cartilha com uma lista de bioinsumos permitidos para a agricultura regenerativa, além de um projeto com a Embrapa Soja para conversão de áreas degradadas.

Ao colocar o instituto de pé, com uma vida própria, a expectativa de Barbieri é atrair mais recursos para diferentes projetos, cada um com seu próprio plano de desenvolvimento. Há, também, a perspectiva de conseguir financiamento institucional para a Folio — hoje apoiada integralmente pela Raiar.

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Dentro da nova estrutura da Folio, o instituto conta com um comitê consultivo, formado por Felipe Alves (chairman da Morro Verde Fertilizantes), Marcus Menoita (CEO da Raiar), Paulo Borges (um dos fundadores do GAAS), Marcelo Behar (consultor do World Business Council for Sustainable Development), Ludmila Rattis (pesquisadora do Woodwell Climate Research Center) e Plínio Ribeiro (CEO da Biofílica Ambipar). 

No comitê fiscal, estão Natália Dias (ex-BNDES) e João Dourado (CFO da Raiar). No comitê científico, Virgínia Damin (professora da Universidade Federal de Goiás) e Sérgio Pimenta (consultor agrícola da 360 Consult).